A cadeira vazia

Nunca havia saído, mas saiu. Aquela noite foi escolhida para fazer algo que nunca havia feito, mas fez. Saiu. Pegou uma muda de roupa e uma toalha. Leu em algum livro que a melhor coisa que poderia levar para qualquer lugar era uma toalha, e assim fez, levou a toalha para onde nunca havia ido.
Saiu mas não foi longe, foi até onde o pouco dinheiro que tinha podia pagar. Subiu no ônibus e decidiu não apertar o botão e nem puxar a cordinha, queria ser expulso, nunca havia sido, mas foi. Expulso no ponto final, no ponto final do ônibus mas no ponto começo de onde decidiu ir. Era apenas uma nova novidade, afinal nunca havia saído, mas saiu.
Do lugar de onde foi expulso até onde estava agora foram poucos passos, e poucos minutos. Sentia que aquele lugar não era o certo para a sua saída, mas foi expulso, então aquele lugar tornou-se o certo pela escolha de outro. Começou mal.
Depois de algum tempo percebeu que não tinha mais a muda de roupa, mas a toalha ainda estava ali no seu ombro, tão parada quanto as suas idéias. A muda ficou no ônibus, ou em algum outro lugar pois não era importante. Concluiu que o livro estava certo e sua mãe errada. Decidiu virar naquela esquina, afinal as escolhas eram suas, e escolheu sair daquele rumo, nunca havia saído, mas saiu.
Encontrou uma mesa de lata com duas cadeiras, também de latas. Concluiu que era um bar, decidiu sair da rua e sentar, foi atendido por uma mulher que parecia ser sua mãe, apostou com ninguém que seu nome era Maria. Perdeu a aposta quando ouviu chamarem-na de Karol. Mesmo indignado por não aceitar Karol como um nome de mãe pagou a aposta e pediu uma bebida.
A outra cadeira ficou ali sozinha e vazia, pensou o porquê dela estar ali. Olhou em volta e notou que tudo ali nutria de uma necessidade de estar acompanhado de algo que lhe completasse. A mesa e as cadeiras, a bebida e o copo, seu ombro e sua toalha. Tentou imaginar o mundo sem isso, sem todo esse companherismo involuntário, tentou em sua cabeça excluir toda essa rotina de pares e percebeu um mundo doente. Mas não o mundo todo, tinha acabado de sair, conhecia apenas aquele mundo que podia ver. O bar, as cadeiras, a toalha e só. Sabia pouco, não tinha como saber mais, nunca havia saído, mas saiu.
Seu copo ficou mais vazio do que cheio. Era sinal que deveria sair, mais uma vez saiu. Levantou e voltou para casa, aquele mundo que viu não alimentou a sua vontade de sair outra vez sem antes encontrar seu par. Resolveu ficar em casa, ele, sua toalha e a cadeira vazia.
Photo credit: Panoramas
27 de July de 2008
Texto intrigante, adorei o contexto.
o que é istoOOO